O bico de obra Mikhail Khodorkovsky

"Khodorkovsky" é, inevitavelmente, um dos acontecimentos de Berlim 2011!"

 

15.02.2011 - Jorge Mourinha, em Berlim
http://ipsilon.publico.pt/Berlinale/texto.aspx?id=277495 

Documentário sobre oligarca russo preso desde 2003 é acontecimento no Festival de Berlim

A dimensão política que o Festival de Berlim sempre teve é inevitável - afinal, estamos a falar de um certame criado que, em plena Guerra Fria, fora pensado como um "farol" de liberdade no centro da área de influência da (então) URSS. A Berlinale nunca se esquece disso e nunca nos deixa esquecê-lo, mantendo acesa uma chama política pelo meio das várias programações, mesmo que os tempos tenham, definitivamente mudado.

A ironia suprema é que "Khodorkovsky", um dos objectos políticos centrais num ano em que o festival ergueu como estandarte simbólico a homenagem ao cineasta iraniano encarcerado Jafar Panahi, aparece fora de concurso numa das secções paralelas, em vez do lugar central na selecção competitiva que mereceria. Como quem diz: sim, somos um festival político - "ma non troppo". Apesar de "Operação Padrão", o documentário de Errol Morris sobre Abu Ghraib, ter estado em competição em 2008, a diplomacia com a Rússia é coisa mais delicada e "Khodorkovsky", que o alemão Cyril Tuschi dedica ao oligarca preso desde 2003 e demonizado pelas autoridades russas, teve de se contentar com a mostra paralela Panorama Dokumente.

Diga-se em abono da verdade que "Khodorkovsky" não passou exactamente despercebido. A primeira das quatro projecções programadas lotou os 500 lugares do cinema International, a grande sala de prestígio da velha Berlim Leste, levando a alguns dos espectadores que não obtiveram lugar a sentar-se nas coxias. E, caso raro numa sessão mista de público e imprensa, ninguém, mas absolutamente ninguém, saiu a meio.

O que é um enorme elogio a Tuschi, que passou os últimos anos a procurar levar a bom porto, contra ventos e marés, um objecto bicudo sobre um assunto delicado, e no processo criou talvez a melhor introdução possível à Rússia pós-perestroika. Fá-lo através da ascensão e queda de Mikhail Khodorkovsky, ex-cientista que percebeu mais cedo que os outros o potencial capitalista existente na ex-União Soviética e acabou por pagar o preço com uma pena de prisão que, presumivelmente, só terminará quando (se?) Vladimir Putin abandonar o poder.

A pergunta que trabalha Tuschi, que o levou a percorrer meio mundo para fazer o seu filme, não é "porque foi Khodorkovsky preso?". A pergunta é: "Porque é que Khodorkovsky se deixou prender?" Porque, inevitavelmente, ao nível em que o magnata se movimentava, era inevitável que tivesse havido sinais, avisos do que iria acontecer., e ele poderia ter feito como os seus sócios e como muitos outros oligarcas - exilar-se no estrangeiro e refazer a sua vida. Em vez disso, regressou à Rússia de uma viagem de negócios aos EUA e está preso na Sibéria há oito anos.

No processo de perceber porque é que Khodorkovsky se enfiou de livre e espontânea vontade na boca do lobo, Cyril Tuschi leva-nos consigo numa investigação que vai de Telavive e Londres, onde os seus lugares-tenentes se exilaram, a Nova Iorque, onde o seu filho de um primeiro casamento mora. Entrevista um espantoso leque de consultores, familiares, jornalistas, políticos, diplomatas, até colegas de cela, ao mesmo tempo que enfrenta uma "cortina de ferro" por parte de uma classe política russa.

E percebe que a libertação de Khodorkovsky é um enorme bico de obra para a diplomacia ocidental, na linha de fractura entre os direitos humanos e os interesses económicos ocidentais - e, como o ex-ministro dos negócios estrangeiros Joschka Fischer diz a certa altura, o mundo não gira à volta dos direitos humanos, por muito idealistas que sejamos.

Parte do charme (sim, do charme) de "Khodorkovsky" vem precisamente do idealismo que sentimos em Tuschi, da sua vontade em acreditar que as pessoas são intrinsecamente boas (talvez venha daí a sua tese de que Khodorkovsky está a querer dar um exemplo moral à Rússia moderna). O que torna o seu documentário numa viagem fascinante é o modo como percebemos que, mais do que nosso guia, o realizador é apenas uma pessoa normal, alguém que compreende tanto destes mecanismos como nós e quer percebê-los - afinal, Tuschi não é documentarista de formação e a sua única longa-metragem anterior era uma ficção. No processo, aprendemos com ele mais sobre o nosso mundo, incluindo coisas que talvez preferíssemos não saber, com uma leveza de toque que nunca corta a gravidade de um filme que fala de coisas muito sérias sem por isso sucumbir ao desespero.

"Khodorkovsky" é, inevitavelmente, um dos acontecimentos de Berlim 2011.